A motociclista ucraniana Anna Grechishkina, de 36 anos, está rodando o mundo de moto. Há 3 anos, no dia 27 de julho de 2013, justamente a data em que é comemorado o dia nacional do motociclista, ela saiu de Kiev com a moto e só mil dólares no bolso. De lá pra cá, foram 25 países espalhados pelo leste europeu, Ásia, Oceania e Américas, e essa incrível aventura trouxe a Ana pro Brasil. Ucrânia, Belarus, Rússia, Tailândia, Malásia, Cingapura, Austrália, Estados Unidos (da costa leste a oeste), México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasi já ficaram para trás.

Ela esteve  aqui mais ou menos 1 mês e meio e, antes de embarcar  para a África do Sul, conversou em São Paulo com a repórter do SporTV Lívia Laranjeira, para falar um pouco dessa experiência.Anna, é um prazer conhecê-la. Como começou seu envolvimento com o motociclismo?Eu comecei a andar de moto há 11 anos, desde 2005, e pra mim foi uma grande surpresa, porque eu não tinha amigos motociclistas, eu nunca tinha andado nem na garupa. De repente, uma manhã, eu acordei com a ideia. Por que não aprender a pilotar uma moto? Então eu fui a uma motoescola, consegui a minha licença, e comecei a pilotar.De onde veio a ideia de viajar pelo mundo de moto?

Na verdade, quando eu comecei a pilotar, em geral, primeiro eu comecei a viajar pela Ucrânia e em volta, pelos países vizinhos, depois um pouco mais longe e por mais tempo… E eu adorei, isso se transformou na minha paixão. E daí um dia eu tive essa ideia louca: por que não viajar ao redor do mundo? Pode ser assustador, realmente assustador, porque eu me dei conta de que era muito difícil, e caro, e pode ser perigoso, mas era o meu sonho, ver o mundo, e eu decidi torná-lo realidade.

Essa ideia de rodar o mundo de moto, foi um plano difícil de colocar em prática?

Na verdade, sim. Eu levei mais de um ano me preparando. Houve muitos momentos em que me senti desencorajada e estava quase desistindo, porque eu estava tentando conseguir patrocínio, eu não podia bancar uma viagem dessas, muita gente não acreditava na minha ideia… Então foi muito muito difícil, mas no fim, eu decidi começar e ver o que acontecia. Se não desse certo, eu teria que voltar, se não, talvez meu sonho pudesse se realizar.

Como seus amigos e sua família reagiram quando você contou sobre os seus planos?

Bem, eles ficaram chocados, é clar. Alguns me disseram que eu era louca e que eu não devia fazer isso. Outros apoiaram, e pra mim, foi melhor ouvir a esses que apoiaram. E minha família também. Na verdade, eu não tenho muita família, apenas tias e primos, mas eles apoiaram muito, e ainda apoiam. Isso ajudou muito.

Você estava falando as dificuldades, especialmente sendo uma mulher viajando sozinha. Eu queria que você entrasse um pouco mais nesse assunto, como tem sido?

Depois de todos esses anos, eu me dei conta de que ser mulher na estrada algumas vezes é até mais fácil, porque as pessoas estão mais abertas a você, elas não se sentem ameaçadas e elas sentem que talvez você seja mais frágil e precise de mais ajuda. Então eu recebo muita ajuda de todo mundo. Mas é claro que eu tenho que tomar mais cuidado pra não pilotar por lugares perigosos, é melhor não pilotar à noite, etc. Então você tem que cuidar de si mesma, e ser esperta.anna grechiskina 12

Sobre a moto… A sua é enorme. Acho que com toda a bagagem, chega a 350 quilos. O que você leva com você?

Bem, minhas roupas, minha câmera pra fotos e vídeos, meu computador, algumas ferramentas pra moto, também a minha barraca, porque em alguns momentos eu tenho que acampar. Então apenas essas coisas essenciais, mas eu tento que a minha bagagem seja a menor possível. A moto já é pesada mesmo sem a bagagem… Com a bagagem fica ainda mais pesada.

Como tem sido viver na moto?

 Tem sido uma experiência incrível. Para mim, minha moto é mais que uma moto. É a minha casa, minha família, meu melhor amigo, porque é a única coisa que sempre me acompanhou durante esses três anos. Os lugares e as pessoas mudam, o tempo todo, mas a minha moto está lá. E eu aprendi a confiar nela a cada dia mais. Ela nunca me deixou na mão, nunca falhou, então estou muito feliz que eu esteja pilotando essa moto, a KTM.

 Você teve algum problema técnico pelo caminho?

Não, nada. Eu fico muito feliz com isso, porque eu não sou uma pessoa que resolve problemas técnicos. Se alguma coisa grave acontecesse, eu não seria capaz de consertar. Mas até agora, tudo bem. Eu estou muito feliz. Eu procuro visitar as concessionárias da KTM em quase todos os países, eles fazem um rápido check-up, mas eles sempre me dizem que moto está em condições perfeitas, que não é necessário fazer nada sério, então...

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Eu aposto que você cuida bem dela…

É, eu tento.

Ela tem um nome?

Sim. Ela é um menino, na verdade. O nome dele é Little Guy (garotinho), ou Chiquito, em espanhol. É um nome meio irônico, porque não é um garoto pequeno, mas é um nome carinhoso para a moto, e eu a amo tanto… (Em russo, é algo como «Malysh»). É como «baby», garotinho… Um nome muito carinhoso.

Falando sobre orçamento: você saiu de Kiev com mil dólares...

É, era tudo que eu tinha àquela altura. Eu estava pensando até em cancelar a viagem, mas os planos já estavam de pé, e eu já tinha recebido a moto, então não podia cancelar. E eu não queria, porque era o meu sonho, e eu decidi seguir com ele.

Você disse que estava buscando patrocinadores, naquela época. Você conseguiu alguma coisa?

Na verdade, eu consegui alguns patrocínios muito pequenos, mas é claro que você precisa de algum dinheiro pra se preparar pra uma viagem dessas, então eu usei esses patrocínios na preparação. E aí, quando a viagem estava pra começar, eu tinha apenas mil dólares.

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Qual o segredo pra controlar os gastos da viagem? 

Bem, eu tento economizar bastante, claro, e eu prefiro ficar nas casas de moradores locais. Primeiro de tudo, porque é muito interessante, mais fácil para fazer amigos, e também ajuda a economizar. Mas eu estou sempre buscando maneiras para financiar a viagem: procuro patrocinadores, ganho dinheiro escrevendo artigos, etc. Então é sempre um sentimento de insegurança, e um desafio para seguir em frente, mas até agora, deu tudo certo. E às vezes as pessoas ajudam, eu também descobri páginas na internet que ajudam a levantar dinheiro, às vezes completos estranhos que eu encontro pelo caminho ajudam… Foi como eu descobri que o mundo é um lugar incrível, com muitas pessoas incríveis. Eu fiquei impressionada.

 E você me disse que você tenta ter contatos em cada lugar pra onde você vai mesmo antes de chegar lá… Como é isso?

Eu sou muito ativa nas mídias sociais, especialmente no facebook. Eu posto muitas fotos, muita informação sobre a viagem, e eu tenho muitos amigos e seguidores. E algumas vezes, eles simplesmente me mandam mensagem oferecendo ajuda, acomodação, eles me apresentam aos amigos deles, a comunidades de motociclistas… Então eu consigo informação e muitos contatos em cada cidade e país.

O clima, na estrada, nem sempre é muito favorável… 

Não, não mesmo. Às vezes chove pesado, às vezes até neva, às vezes está só frio, mas eu não gosto de frio…

Qual foi a pior estrada que você pegou, ou qual foi a experiência mais difícil ou perigosa que você encarou? 

Quanto às estradas, algumas estradas na Bolívia eram muito desafiadoras, na Rússia, também. A Rota 40, na Argentina, ou a Carretera Austral, no Chile, mas mesmo assim eu aproveitei esses pequenos desafios, e a minha moto é muito boa para todos os tipos de estrada. Às vezes, eu não dou conta, mas a moto dá conta de tudo. 

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Alguma experiência particularmente difícil ou perigosa?

 Eu acho que eu tenho sorte, e eu tento ser bem cuidadosa, pra não pilotar à noite. Eu não vivi nada que fosse realmente perigoso para a minha vida ou saúde. Mas algumas vezes, eu senti medo da estrada, ou o clima estava muito ruim, com muita chuva, durante a noite… Então eu senti um pouco de medo, mas nada que colocasse em risco a minha vida. 

O lado bom é que você com certeza viu muitos lugares lindos. Qual te impressionou mais?

É difícil responder, porque eu estive em tantos lugares, e tantos deles são realmente tão lindos… Como a Ásia, a Austrália, e Brasil… O Brasil é impressionante, as Cataratas, e tantos lugares no sul… Serra do Rio do Rastro, e muitos outros lugares. Eu quero voltar ao Brasil, um dia. 

 

Você também deve ter conhecido muita gente boa pelo caminho. Como tem sido essa experiência? 

Eu acho que essa é a melhor experiência da minha viagem. Para mim isso é o mais importante: conhecer pessoas, compartilhar histórias com eles, e também, de alguma forma, inspirá-las e encorajá-las a seguirem os seus sonhos. É por isso que eu gosto de visitar escolas, orfanatos, hospitais, asilos para idosos… Para dividir a minha experiência, para mostrar fotos, para contar a história do meu sonho, e eu gosto muito quando eles dizem «ah, agora eu realmente acredito que eu posso fazer alguma coisa com a minha vida». Então pra mim essa é a melhor experiência da minha viagem.

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E o Brasil? O que você está achando do nosso país? Você disse que você visitou praticamente o sul do Brasil...

Sim fui somente para o Sul, uma pena, mas foi o suficiente pra me apaixonar por esse país. Eu ouvi, até antes, de muitos viajantes, que o Brasil era um país especial, e que os brasileiros são muito legais. E eu agora concordo com isso. Eu acho que os brasileiros são um dos povos mais abertos e prestativos, especialmente com viajantes e turistas. Eu recebo muito ajuda e fiz muitos amigos no Brasil. Isso é incrível. 

Nós somos pessoas legais, então?

 Muito legais! Muito felizes, muito amigáveis, e a comida é absolutamente deliciosa, então eu não consigo manter a minha dieta, aqui… E tem paisagens absolutamente lindas, então eu gostei muito daqui. 

Você pode me dizer novamente quando você chegou e quando você pretende ir embora (a entrevista foi gravada em agosto de 2016)?

Eu cheguei há um mês e meio, em Foz do Iguaçu, e acho que vou pra África do Sul em mais um mês. Então eu vou ficar aqui quase 3 meses. 

Quanto tempo você geralmente em cada lugar?

É sempre diferente. Depende do tamanho do país, das atividades que eu tenho lá, dos meus próximos planos. Às vezes são algumas semanas, às vezes, alguns meses… Varia bastante.

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Claro que a gente nunca sabe o que o futuro reserva, mas quais são os planos para as próximas etapas da viagem?

Bem, do Brasil eu vou para a África. Eu estou ansiosa e muito animada. Eu acho que vou ficar até um ano por lá, porque eu já passei um ano aqui na América do Sul. De lá eu vou pra Europa, e aí talvez eu volte pra Ucrânia, talvez eu continue a minha viagem. Nesse momento, eu não tenho isso definido, porque agora não é mais minha viagem ou o meu projeto, é o meu modo de vida, o que eu realmente amo, e eu não quero que termine.

Você acha que você seria capaz de voltar pra Ucrânia, voltar a ser uma tradutora, uma professora, algo assim? 

Eu acho que não. Eu com certeza vou voltar pra Ucrânia para concluir essa viagem, pra fazer dela a «viagem ao redor do mundo», mas eu tenho certeza que depois de um tempo, eu vou começar a viajar de novo. Talvez não para distâncias tão longas, como agora, mas eu vou continuar viajando a minha vida inteira, com certeza. 

Qual é o segredo pra encontrar tempo, disposição e coragem para viajar o mundo de moto? Eu aposto que há dias em que você não quer pilotar… Como você lida com esses dias ruins? 

Sobre o segredo, eu realmente não sei. Eu acho que você só quer querer. Você precisa conhecer a sua paixão e o seu sonho, do que se trata. Se você sonha viajar, você só tem que fazê-lo. O passo mais difícil é o primeiro passo. Depois o segundo e o terceiro são muito mais fáceis. E todos os nossos problemas estão dentro da nossa cabeça, nossas dúvidas, nossos medos. Mas quando você começa a fazer alguma coisa, não é tão difícil quanto parecia no começo.

Então eu diria que as pessoas têm que dar o primeiro passo para verem que é muito mais fácil do que parece. Quanto a pilotar todos os dias, você está certa, eu não gosto de pilotar todos os dias, porque para mim, minha viagem é mais sobre as experiências nos lugares, conhecer pessoas, e pra isso, você precisa de tempo. Então quando eu chego a algum lugar, fico por alguns dias para conhecer o lugar, para conhecer pessoas, visitar escolas, e aí eu sigo viagem. Então eu sempre tenho essas pequenas pausas. (Se você fica cansada ou doente…) Ou mesmo se eu não tô afim de pilotar naquele dia. Eu tendo a ouvir a minha intuição, porque eu acho que a gente sabe tudo que vai acontecer. Então nesses dias eu tento ficar nos lugares, e não pilotar.

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Eu estava te perguntando sobre a sua família, você disse que tem tias e primos na Ucrânia. Vocês mantêm contato? 

Sim, sempre, a gente mantém contato pelo skype, pelo facebook, e eles me seguem no facebook, então eles sabem exatamente onde eu estou, o que está acontecendo. (Eles ficam preocupados?) Eles ficam, mas eles sabem que eu sou muito cuidadosa e que eu não faço coisas estúpidas. Agora eles só me perguntam quando eu vou voltar pra Ucrânia, e pra mim é muito difícil responder que talvez em um ou dois anos…

Você conhece muita gente que tem vontade de fazer o mesmo tipo de viagem que você está fazendo?

Na verdade, sim. Quando as pessoas me conhecem, e sabem sobre a minha viagem, elas falam «ah, nós também temos esse sonho…» Mas pra muitas pessoas não é tão fácil, porque elas têm muitas responsabilidades, família, negócios etc. Pra mim foi mais fácil, porque eu não tenho filhos, não tenho aquela família mais próxima, e eu acho que não é realmente necessário pra todo mundo viajar ao redor do mundo. Eu acredito que cada pessoa tem a sua missão no mundo. Se a sua missão é criar seus filhos, cuidar deles, perfeito. Para algumas pessoas como eu, talvez seja viajar ao redor do mundo, mas não é que todo mundo deva fazer isso. 

Se você pudesse se definir em uma frase ou um mote, qual seria? 

Eu acho que eu me definiria como cidadã do mundo. Eu sinto que eu não pertenço mais a nenhum lugar, eu pertenço a todos os lugares. Então essa seria a minha definição de mim mesma. 

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Seu projeto é inspirado na fala de Martin Luther King, «Eu tenho um sonho». Por que?

 Na verdade, o nome do meu projeto é «Eu tenho um sonho». Está na minha moto, no meu braço, na minha mente. É tudo sobre sonhar. Eu realmente acredito que um pequeno sonho pode mudar o mundo, definitivamente pode mudar a sua vida. Então a minha mensagem para o mundo, e para as pessoas que eu conheço é que você tem que seguir seu sonho, seguir seu coração. Não necessariamente viajando ao redor do mundo.

 

Mas toda pessoa tem um sonho. Viajar pelo mundo, ter uma família, construir um negócio, qualquer coisa. E eu tenho certeza que qualquer sonho pode se tornar realidade. No momento que ele surge na sua cabeça significa que ele pode se realizar. É por isso que eu gosto de conhecer muita gente diferente, especialmente mulheres, esse é o meu público alvo, pra dizer pra elas que elas podem fazer o que quiserem com a vida delas.

 

Ao longo da viagem, ganhei  presentes significativos… Eu tenho um pequeno sino, que representa boa sorte, aqui. Não é que eu realmente acredite nessas coisas, mas eu acredito na boa energia das pessoas, nas boas intenções delas. (De onde é esse?) Esse é do México. Eu tenho que mandar de volta pra casa grandes pacotes com presentes, camisetas, souvenirs. E eu não posso dizer não, porque são coisas dadas de coração e com boas intenções.

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Boa viagem Anna.

Obrigado Lívia.

O Mundomoto agradece o empenho da repórter Lívia Laranjeira pela super-entrevista e cumprimenta a aventureira Anna Grechsikina. Que os deuses da estrada a protejam e que ela possa seguir em sua jornada de maneira segura e divertida.

Fausto Macieira

SourceMUNDO MOTO